quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Cadeiras de balanço: Evolução histórica do design

A cadeira de balanço é um dos muitos dos objetos de uso seculares que não se sabe precisamente qual a sua origem. Ela provavelmente surgiu em função do conforto e relaxamento causado pelo balanço ritmado numa peça de mobiliário de deitar ou de reclinar em contato com o chão, seja qual tenha sido o tal móvel. Podia ser um tronco curvo, um galho longo ou mesmo uma laje de pedra onde a parte superior fosse plana e a de baixo em curva, num arco cujo ângulo fosse adequado para causar o movimento cadenciado e sem exageros na rotação. A cadeira de balanço é uma categoria de uso especial, ela é mais do uma simples cadeira ou poltrona fixa, requer mais conforto e segurança, e tem um conceito e construção formal próprio.

Consideramos inicialmente aqui como “cadeira de balanço” aquela que tem um movimento ondulatório no sentido longitudinal de sentar, o vai e vem do corpo se balançar seguindo um arco de apoio situado na base cadeira. Existem outros movimentos de uma pessoa se balançar sentado, reclinado ou até mesmo deitado num móvel, como também de fazer movimentos em torno de um eixo e até no sentido transversal de uso...são os modelos mistos de cadeira de balanço e lounge chair.

O que se sabe sobre o movimento de balanço é que foi aplicado primeiro nos berços para os bebês dormirem por volta do século XV e, em seguida, nos brinquedos de cavalo e o “rocker”  ( daí vem o nome em inglês, rocking chair) que era a pessoa encarregada de balançar o berço dos bebês. Berços pintados pelos artistas renacentistas, Piero Dela Fransesca e Andrea Mategna mostram o pequenos móveis com o movimento de balanço.  (Figs.1 e 2)

 
Fig.1 e 2 - Detalhes das pinturas de Piero D. Francesca e Andrea Mantegna, sec. XV

Para uso dos adultos a cadeira surgiu no século XVIII, provavelmente pelos ingleses, que a levaram para os EUA, onde lá se difundiu. Na verdade, ninguém sabe quem foi o primeiro a adaptar o arco de movimento na base de uma cadeira comum. Os historiadores só puderam rastrear as origens da cadeira de balanço na América do Norte durante esse século. Elas foram originalmente utilizadas em jardins e varandas e eram, de início, cadeiras comuns um pouco mais alongadas, nas quais apoiavam-se a pontas dos 4 pés em arcos de madeira para o movimento de balançar. Umas das poucas cadeiras desse tipo que sobraram desse período data de 1710. (Fig.3)



Fig.3 - Cadeira do estilo yorkshire adaptada para balanço, 1710

As cadeiras Windsor, como ficaram conhecidas, surgiram perto do castelo de Windsor no início dos anos 1700. Estas cadeiras são caracterizadas por um espaldar dobrado para trás em curva e finos raios de madeira  atrelados diretamente no assento. Eram cadeiras com Design leve que aparentavam fragilidade, mas a estrutura composta de várias peças finas de madeira davam a rigidez e a resistência necessária para o uso a que se propunham. Por volta de 1750 eram amplamente utilizadas nas fazendas e residências urbanas americanas. Devido a isso podemos considerar os colunos americanos como os primeiros designers da história a desenvolverem típicas cadeiras de balanço. (Figs. 4 a 6)

                 Comb back Windsor Rocking chair, 1750 1775.
Fig. 4 - Windsor inglês, 1740 | Fig.5 - Windsor americana, 1770 | Fig.6 - 1775

A cadeira de balanço feita de vime foi outro projeto popular criado nessa época. A produção de cadeiras de balanço e outros  móveis de vime atingiu o seu pico nos Estados Unidos em meados do século XVIII. Eram popularmente conhecidos os artesãos de vime e ficaram  famosos por suas habilidades na confecção de objetos com esse material  e desenhos criativos. Em 1787, a “rocking chair” apareceu pela primeira vez no dicionário de Oxford.

A partir de 1800, com o avanço da revolução industrial, as cadeiras de balanço começaram a ganhar mercado na Europa e EUA. Não mais se restrigiam a estilos ou maneirismos obtidos pela adequação de uma cadeira fixa ao arco de balanço e se diversificaram em forma e construção. Mas foi nos EUA que essa categoria de cadeira se espalhou em termos multiformais. Ganharam até nomes apropriados, - como os carros que surgiram só no seculo seguinte-, segundo as caracteristicas do Design, da região específica e da cidade onde eram fabricadas. A forma Shake se disntiguia das demais por usar nos espadaldares com peças de madeira no sentido horizontal (Figs. 7 a 11)


                 
Fig.7 - Cadeira rústica canadense, 1825 | Fig. 8 - “Birdcage”, 1800 | Fig.9 - Shaker, 1820 | Fig.10 - Boston, 1840 | Fig.11- Salem, 1840
             
O vime como material já era utilizado desde o império romano e esse material flexível foi usado na Europa para a fabricação de cestos e móveis. A primeira cadeira de balanço de vime surgiu na Inglaterra, mas foi nos EUA que o uso desse material se propagou para combater a importação européia, e essa concorrência favoreceu o Design e a produção nas regiões americanas onde esse material era abundante e barato. Surgiram, então, muitos modelos desenvolvidos com vime nos EUA no século XIX. Eram modelos de construção esmerada e com desenhos floridos e formalmente diversificados. (Figs. 12 e 13)

    
Figs. 12 e 13 - Cadeiras de vime Heywood e Wakefield, 1850s

Outro material  muito utilizado pelos colunos americanos eram os galhos do Adirondack, uma árvore originária da Inglaterra. Maleável, barato e durável, embora de aparência rústica, o adirondack sozinho ou combinado com outros materias naturais forneceu, a partir da metade do século XIX, bons e bonitos exemplos de cadeiras de balanço feitas  de forma artesanal. Não seguiam um design com um estilo conhecido ou que revelasse uma tendência formal. Eram peças exclusivas e possivelmente de modelo único e de acordo com a criatividade e cultura local do artesão. Simples, diferentes, rústicas e multivariadas formalmente e detalhes de construção bem interessantes. ( Figs.14 a 17)
                   
      
Figs. 14 a 17 - Modelos diversificados feitos de adirondack e junto ou não com outros materiais, sec. XIX.

A partir da metade do século XIX , com a famosa  Feira Mundial na Inglaterra em 1851, a história da cadeira de balanço começa a mudar. A Revolução Industrial já era uma realidade e, embora o Design continuasse preso às formas dos estilos tradicionais, o modernismo foi aos poucos surgindo e a cadeira de balanço foi uma das categorias dos objetos de uso que seguiu essa nova abordagem formal e conceitual. Os marcos dessa mudança foram dois: os produtos de características multiformais de Thonet e a cadeira de ferro dobrado de Peter Cooper 

Thonet foi um dos precursores em industrializar as cadeiras de balanço. (Figs. 18 a 20)

       
Figs. 18 a 20 - Primeira cadeira de balanço Thonet, 1860; a N. 10, 1880 e a de 1902

Mas foi o modelo em ferro dobrado, desenvolvido por Peter Cooper, que inaugurou o Design Moderno das cadeiras de balanço, ainda na metade do século XIX. Um design primoroso e inovador para a época, não devendo nada as que são produzidas atualmente em termos de ergonomia, material, feitura e forma.. (Fig. 21)
Fig.21 - Cadeira em ferro de Peter Cooper, 1850

Enquanto Thonet revolucionava com o seu processo industrial de dobrar os bastões de madeira e Peter Cooper decretava o início da nova era formal para o Design da cadeira de balanço, os modelos de características formais clássicas se misturavam com outros de tendências mais modernas em várias partes do mundo. As duas últimas décadas do século XIX trouxeram a afirmação dessa categoria de móvel e o Design surgia já com características formais modernas e de tecnologia variada.(Figs. 22 a 25)

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Figs. 22 a 25 - Para criança em folhas de madeira moldadas, 1883; em bastões dobrados como Thonet de Jacob e Josef Kohn, 1869;  seguindo o estilo  Chippendale, 1880; e  a Carved Rope Twist , uma mistura de estilos de 1890.

O século XX entra na modernidade movido pelos movimentos artísticos que surgiram nas últimas décadas e o design da cadeira de balanço surge altaneiro e desafiador. Seja no lindo Design Art Nouveau de Henry Van de Velde, na ousadia formal e construtiva de Antonio Volpe, na simplicidade formal de um designer anonimo e até no exagero formal e de conforto de Lloyd Loom. (Figs. 26 a 29)

            
Fig. 26 - Ar Nouveau, H. Van de Velde, 1904. | Fig.27 - Egg, Antonio Volpe, 1910. | Fig.28 - Desconhecido | Fig.29 - R61, Lloyd Loom, 1922

Com o fenômeno do Design Moderno da Bauhaus, as coisas formais de uso tomaram outros rumos. O uso do tubo de aço inoxidavel virou uma febre por parte dos designers funcionalistas e a madeira tecnicamente já usada há seéulos recebeu novos tratamentos tecnológicos. O curioso é que a cadeira de balanço não foi umas das categorias de uso preferidas pelos designers bauhasianos e só alguns poucos modelos foram desenvolvidos nessa época. Na simplicidade formal e na beleza do movimento expresso pelas curvas, em metal ou madeira: (Figs. 30 a 32)

            
Fig. 30 - Atelier DIN, 1930 | Fig.31 - Hans Wagner, 1944 | Fig.32 - Sam Maloof, 1950

E foi pelo casal Eames que a ousadia de firmou, em plena guerra mundial. Novos materiais foram usados e determinaram novas formas para o especifico uso. (Figs. 33 a 35)

     
Figs. 33 a 35 - As famosas e insuperaveis RARs do casal Eames, desenvolvidas entre 1948 e 1951.

Depois da guerra, o design e a produção foram aos poucos se levantando e, na deéada de 1950, alguns exemplos mostram essa recuperação. E de forma bastante ousada, pelo uso aprimorado dos materiais, nas formas e na inovação tecnológica surgidas pelo esforço da guerra, a modernidade enfim chegara para ficar no Design da cadeira de balanço. (Figs. 36 a 38)


         
Fig.36 - Rapid, Ralph Rapson, 1951 | Fig.37 - Gio Ponti, 1953 | Fig.38 - Loop, Willy Gulh, 1954     

Os anos 1960 chegaram junto com a explosão do consumo e culminou com o design avançado dos italianos e escandinavos. As formas inusitidas deram o mote. Nos anos 1970, surgiram poucos exemplos dignos de nota, mesmo assim o design nop foi esquecido nessa categoria de uso. A revolução formal  e construtiva avançava. Até de papelão uma cadeira de balanço foi desenvolvida, a de Franck Ghery em 1972. (Figs. 39 a 43)


                     http://www.designboom.com/eng/education/rocking/c2.jpg http://www.designboom.com/eng/education/rocking/c3.gif 
Fig.39 a 43 - Sgarsul, Gae Aulenti, 1962; Forenza, Motomi Ka Wakami, 1968; S826, Ulrich Bohme, 1971; Easy edges, Franck Gehry, 1972; Dondolo, Luigi Crassevig, 1976

E durante as últimas duas décadas do século XX, a cadeira de balanço, ao invés de avançar, retrocedeu e só alguns designers se aventuraram nessa seara e trouxeram a contemporeneidade. No final do século, a tecnologia da inovação passou a fazer parte do contexto do Design como um todo e a cadeira de balanço, mesmo sendo um objeto de uso peculiar, participou com alguns exemplos bem interessantes.  Três exemplos se destacaram nessa nova onda formal: a Monsieur X, de Philippe Starck de 1996, numa solução formal das antigas; a Peter Opsvik, com a Gravity  pela ousadia formal e funcional, e a de Ron Arad, a esquisita Soft Heart.

A Monsiuer X é uma daquelas caretices de Starck de voltar ao passado, de fazer um Design revisitado, mas ela prima por ser de ótima qualidade estética e de uso. Tem equilibrio formal e realmente parece ser uma coisa antiga. 

A Gravity Balance, de Peter Opsvik, é uma fantástica obra de invenção nessa categoria de uso. É ousada, bonita e de construção inusitada, embora um pouco instável.

A Soft Heart segue a obsessão de Arad pelas curvas acentuadas e gordos volumes, mas é totalmente diferente de tudo que se fez nessa categoria de uso, ao reverter a posição do balanço, com o assento ao contrário e de ainda ter um encosto transversal como uma poltrona comum. Não é lá essas coisas todas de conforto e bem-estar no balanço, mas é uma inovação formal e funcional.(Figs. 44 a 46)
  
                                                           
  Fig.44 - Monsieur X, Philippe Starck, 1996 | Fig.45 - Gravity Balance, Peter Opsvik, 1999 | Fig.46 - Soft heart, Ron Arad, 1990.
    
O início do  século XXI veio com algum estrondo no desenvolvimento da cadeira de balanço. Num concurso internacional  para lembrar e afirmar que essa catergoria de uso continua viva realizado em 2002, surgiram alguns conceitos passíveis de uso e outros idiotas. Pelo menos a ideia secular de balançar numa cadeira foi relembrado e algumas inovações formais e de construção surgiram.  (Figs. 47 a 57)

                          
Fig.47 - Rocking bench, Heidi Winge Stroem  | Fig.48 - Rookie, Juan Carlos Ruiz | Fig.49 - Pyromaniac's rocker', Alan Biciri

modern rocking chair Modern Rocking Chair and Love Seat by Scott Wilson                        
Fig.50 - Purity, Wilson Scott  |  Fig. 51 - Squish, Jeremy Blankenship  |  Fig.52 - Baba, Chris e Paul Massie  |  Fig.53 - Hulot, Catharina Lorenz e Steffen Kaz 
         
Fig.54 - Rolling mesh, Jae-Kyu Lee e D. Lee | Fig.55 - Moon,Wouter Scheublin | Fig.56 - Bop, Alain Berteau  | Fig.57 - After shave, Cédric Ragot   

E assim,  a CADEIRA DE BALANÇO dos velhos avós que contavam histórias balançando no vai e vem sonolento e esperançoso com os netos no colo, se perpetuou na era em que o computador comanda e a internet rege a orquestra das ilusões constantes do bem-estar. Os exemplos são de uma impressionante capacidade de reviver esse móvel de uso singular. Em materiais diversos e propostas formais atuais elas se apresentam ousadas em seus conceitos e soluções diversas no ato de balançar. Algumas são verdadeiras obras de arte no sentido criativo da linguagem estética do Design. E não vão parar por aí! (Figs.58  a 64)

   
sleek abilene rocking chair 
Fig. 58 - Magis Voido, 2006 | Fig.59 - Hongtao Zhou, reciclavel | Fig.60 - Abilene, Wendell Castle | Fig.61 - Keinu, Eero Aarnio. 1980s

gaivoto-rocking-chair-2.jpg  Emma 360 Rocking Chair by Oshar Vazquez Wishbone Rocking Chair by Toby Howes
Fig. 62 - Gaivota, Reno Bonzon | Fig.63 - Emma 360, Oshar Vazquez | Fig.64 - Wishbone, Toby Howes

E culmina em 2010 com o UPDesign de alta tecnologia construtiva, ergonomico e profundamente bonito da Pouyanm.
A sua forma inovadora foi inteiramente baseada nos músculos do corpo humano e pensando no conforto e bem-estar do sentar e balançar. Através de 8 almofadas líquidas preparadas para receber e distribuir as pressões dos músculos abdominais (ver o desenho abaixo da Fig.66) e 2 travesseiros para o pescoço e cabeça, o balançar flui de forma natural, como uma obrigação para atender essa função. As almofadas também regulam a temperatura do corpo, diminuindo a transpiração. O movimento de balanço foi estudado na curvatura da estrutura para o conforto e uma espécie de embreagem por botão, controla a velocidade do movimento de vai e vem. É uma cadeira de balanço de alta tecnologia e Design, aliás, UPDesign porque a vida não se baseia apenas no uso, mas na variação constante da forma e função da natureza, no caso aqui, do corpo humano.  (Figs. 65 a 67)

   human anatomy chair modern design innovation  futuristing rocking chair smart technology seating
Figs, 65 a 67 - É possivelmente a Cadeira de Balanço mais completa e a mais bonita de todas até hoje desenvolvida. É o UPDesign da tecnologia do conforto e da forma inusitada! E olhem que também pode ser uma poltrona fixa!




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